Infância e Adolescência
Nascido em Bela Vista, interior do Mato Grosso do Sul, Ney de Souza Pereira, mais conhecido como Ney Matogrosso, demonstrou desde cedo sua vocação artística, cantando, pintando e interpretando desde muito pequeno.
Ao longo da infância e da adolescência, Ney passou boa parte do tempo sozinho, reflexo das constantes mudanças da família, decorrentes das transferências de seu pai militar. Até completar 17 anos, sua família morou, além de Bela Vista, em Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Campo Grande.
Ao completar 18 anos, Ney entrou para a Aeronáutica e foi trabalhar no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base de Brasília, a convite de um primo. Tempos depois, ainda sem saber o que queria fazer da vida, passou a fazer recreação com crianças. Nessa época, foi convidado para participar de um festival universitário e formou um quarteto vocal.
Mudança para o Rio de Janeiro
Depois do festival, Ney concentrou suas atenções no teatro e decidiu ser ator. Foi esse sonho que o fez desembarcar no Rio de Janeiro, em 1966, onde adotou completamente a filosofia de vida hippie e passou a viver da confecção e venda de peças de artesanato em couro. Nessa época, viveu entre Rio, São Paulo e Brasília até conhecer João Ricardo, através de sua grande amiga Luli. Ricardo estava em busca de um cantor de voz aguda para um grupo musical inovador e convidou Ney para integrar o conjunto.
Secos e Molhados
Após aceitar o convite, Ney mudou-se para São Paulo, onde dividia seu tempo entre exaustivos ensaios, o artesanato e peças teatrais. Em apenas um ano e meio, o sucesso do Secos e Molhados veio de forma explosiva e o grupo se tornou um fenômeno da música popular brasileira, superando a marca de um milhão de discos vendidos, além de shows em grandes ginásios por todo o Brasil.
Com sua maquiagem marcante, roupas extravagantes e performances sensuais, Ney se tornou destaque dentro do grupo, que chegou ao fim logo após o lançamento de seu segundo LP. Com o término, Ney Matogrosso partiu para a carreira solo e tornou-se um ponto contrastante em meio à censura e o preconceito da Ditadura Militar.
Homem de Neanderthal
Em 1975, estreou o show "Homem de Neanderthal", no Rio de Janeiro. A ousada super-produção contava com grandiosos cenários, iluminação e figurinos que transformavam Ney em meio bicho, meio homem, coberto de pelos, chifres e penas. O espetáculo foi um sucesso de crítica e público, assim como seu primeiro disco solo: "Água do Céu-Pássaro".
Bandido
Em "Bandido", seu segundo disco solo lançado em 1976, Ney ressurgiu mais discreto e alcançou seu primeiro grande sucesso nacional como artista solo com a canção "Bandido Corazón", escrita por Rita Lee especialmente para ele.
Festival na Penitenciária
No ano seguinte, através de uma votação, Ney foi eleito o artista predileto dos detentos da Penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro, e foi convidado para fazer o show de encerramento do festival de música do presídio. Para os detentos, Ney representava a liberdadade, assim como para o público em geral.
Pecado & Feitiço
Em 1977, lançou o disco "Pecado", que trouxe canções do repertório do show "Bandido" que ainda não haviam sido gravadas. No ano seguinte, o show e o disco "Feitiço" consagraram uma esplêndida fase da sua carreira.
Grande Intérprete
Ao longo dos anos, seus shows foram se tornando cada vez mais ousados, enquanto Ney aperfeiçoava-se como artista e aumentava gradualmente seu reconhecimento como um dos maiores e mais precisos intépretes do Brasil. Em seu repertório destacavam-se as releituras de canções de Chico Buarque, como "Deixa a Menina", "Tanto Amar", "Até o Fim" e "Las Muchachas de Copacabana", Eduardo Dusek, com "Folia no Matagal", "O Rei das Selvas", "Cobra Manaus" e "Destino de Aventureiro" e suas releituras de clássicos do rock nacional, como "Por Que a Gente é Assim?", "Pro Dia Nascer Feliz", "Fogo e Risco" e "Tão Perto".
Sucesso Internacional
Durante sua carreira solo, Ney chegou a gravar na Itália, ao lado de de Astor Piazzola. O trabalho resultou em um compacto duplo, gravado a convite do compositor argentino. Ney se apresentou em solo internacional, passando por países como Argentina e Uruguai, além de participar de renomados festivais internacionais, com destaque para os festivais em Montreux, na Suíça. Ney também levou seus shows para Portugal diversas vezes e chegou a se apresentar em Israel e nos Estados Unidos.
A Luz do Solo
Em 1986, a temporada de "A Luz do Solo", no Rio de Janeiro, ficou marcada como a primeira vez que Ney Matogrosso subiu ao palco sem qualquer máscara ou fantasia. O intérprete trouxe em seu repertório alguns dos maiores clássicos da MPB, como "Dora", "Nem Eu", "Retrato em Branco e Preto", "Da Cor do Pecado", "No Racho Fundo" e "Na Baixa do Sapateiro", revelando um lado mais maduro e sensível do cantor. No ano seguinte, lançou o álbum "Pescador de Pérolas", que lhe fez alcançar um prestígio no país inteiro que nem ele próprio achava possível alcançar.
Artista Versátil
No decorrer da sua carreira, Ney Matogrosso explorou todas as suas habilidades artísticas, atuando em filmes, como "Sonho de Valsa", de Ana Carolina, e o curta "Caramujo Flor", de Joel Pizzini; foi responsável pela iluminação dos shows de grandes artistas, incluindo Nanna Caymmi, Nelson Gonçalves, Chico Buarque e de grandes casas de show, como a Fundação Oswaldo Cruz, e de peças de teatro, como "Mistério do Amor"; Ney também dirigiu dois Prêmios Sharp, além dos shows do RPM, Cazuza e Simone e a peça "Somos Irmãs".
À Flor da Pele
Em 1990, Ney embarcou em uma jornada de auto conhecimento e espiritualidade, o que resultou no disco "À Flor da Pele", em que experimenta com canções e apresentações intimistas, ao lado de Rafael Rabello.
As Aparências Enganam
Em 1992, integrou o grupo Aquarela Carioca para participar do espetáculo "As Aparências Enganam", que teve como destaque as canções "El Manisero", "A Tua Presença Morena" e "Sangue Latino". Dois anos depois, lançou o disco "Estava Escrito", uma homenagem à Ângela Maria, com explêndidas releituras do seu repertório.
Um Brasileiro
Em 1996, Ney apresentou uma das melhores interpretações de Chico Buarque no show "Um Brasileiro", que se transformou em um disco lançado posteriormente. Nessa mesma época, também lançou o álbum "Cair da Tarde", uma mistura das obras de Tom Jobim e Villa Lobos.
Batuque
Em 2001, o espetáculo "Batuque", também lançado em CD, revisitou as décadas de 30 e 40, um dos períodos mais criativos da música brasileira. O repertório incluía grandes clássicos de Carmen Miranda, como "O Que é Que a Baiana Tem?", "Tico-Tico no Fubá" e "O Mundo Não Se Acabou", transformando o show em uma grande festa dançante ao celebrar o balanço contagiante de grandes sambas, choros e marchinhas daquela época. Ney também foi o responsável pela iluminação e cenários do espetáculo; para os figurinos, o cantor contou com a ajuda do estilista Ocimar Versolato, que buscou peças nos brechós de Paris para compor trajes extravagantes, porém sóbrios e ao mesmo tempo eróticos.
30 Anos de Carreira
A comemoração dos 30 anos de carreira, em 2002, foi marcada pelo lançamento do CD/DVD "Ney Matogrosso Interpreta Cartola", uma antologia da obra do grande mestre do samba. O repertório trouxe seus grandes clássicos, incluindo "O Sol Nascerá", "O Mundo é um Moinho", "As Rosas Não Falam", "Basta de Clamares Inocência" e muitas outras preciosidades. Nesse mesmo ano, o livro "Ousa Ser", do compositor e escritor Bené Fonteles, trouxe um registro de inúmeras performances em shows ao longo de 20 anos de carreira de Ney, através de 135 fotos tiradas por Luiz Fernando Borges da Fonseca, que revelam diversas transformações no visual do cantor e traçam um perfil de sua atitude e ousadia, além de também trazer depoimentos do cantor.
Vagabundo
Em 2005, lançou "Vagabundo", fruto de uma parceria iniciada em 1997 com Pedro Luís e a Parede. O trabalho rendeu dois DVDs, um com registros de toda a etapa de ensaios e gravações e o outro com o show realizado no Olympia, em São Paulo, em junho de 2005. O repertório do show contava com canções de diversas fases da carreira de Ney, desde a época de Secos e Molhados até versões de canções de grandes compositores, como Martinho da Vila e Jackson do Pandeiro. Sucesso de público e crítica, "Vagabundo" foi eleito pelos críticos da APCA como um dos melhores discos de 2004 e melhor grupo em 2005.
Canto em Qualquer Canto
Gravados no SESC-Pinheiros, em São Paulo, o CD e DVD "Canto em Qualquer Canto" trouxe Ney acompanhado de um quarteto de cordas formado por Pedro Jóia (violão e alaúde), Ricardo Silveira (guitarra e violão de aço), Marcelo Gonçalves (violão de sete cordas) e Zé Paulo Becker (violão e viola caipira). O repertório, composto por 14 faixas, incluía clássicos de sua carreira, repaginados com novos e belíssimos arranjos, como "Dos Cruces", "Ardente", "Tanto Amar" e músicas inéditas, incluindo "Canto em Qualquer Canto", "Uma Canção por Acaso", "Duas Nuvens" e "Já Te Falei". A turnê "Canto em Qualquer Canto" viajou todo o Brasil durante dois anos e, em junho de 2007, cruzou o Atlântico para realizar os últimos shows na Itália.
Inclassificáveis
Seu sucessor, o espetáculo "Inclassificáveis", trouxe um Ney completamente diferente, com um novo visual inspirado em seus modelos mais extravagantes da carreira. A apresentação contou com 22 canções, 12 delas releituras de sucessos de outros cantores, como Cazuza, com quatro canções de sua autoria no repertório, Chico Buarque, Caeatano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Drexler. Entre as inéditas, destacam-se as canções de novos compositores, incluindo Pedro Luis, Iara Rennó, Alice Ruiz e Fred Martins, além de Marcelo Camelo e Arnaldo Antunes. O figurino tem assinatura de Ocimar Versolato e a direção musical é de Emílio Carrera, ex-integrante dos Secos e Molhados. O espetáculo originou o CD/DVD de mesmo nome, lançado em 2008.
Depois de Tudo
Ainda em 2008, Ney participou do premiado "Depois de Tudo", curta metragem de Rafael Saar, onde fez o papel de um homem casado há 35 anos, que mantém um relacionamento extraconjugal com outro homem, interpretado pelo ator Nildo Pereira. O curta foi exibido no II For Rainbow - Festival de Cinema da Diversidade Sexual, realizado no Ceará.
35 Anos de Carreira
Seus 35 anos de carreira foram comemorados com o relançamento de seus principais álbuns da carreira na compilação "Camaleão", lançada em uma luxuosa caixa com 17 álbuns, incluindo os do começo da carreira solo, ainda nos anos 70, passando pelos trabalhos dos anos 80 e chegando ao início da década de 90, além de contar com dois CDs-Bônus, a coletânea "Pérolas Raras" e "Caetano Veloso, João Bosco e Ney Matogrosso - Brazil Night", registro de um show realizado no Festival de Montreux, na Suíça, em 1983.
Luz Nas Trevas - A Revolta de Luz Vermelha
Em 2009, começaram as gravações do longa "Luz Nas Trevas - A Revolta de Luz Vermelha", continuação do clássico de 1968, "O Bandido da Luz Vermelha", que conta a trajetória do criminoso João Acácio. Ney interpreta o próprio bandido, ao lado de Maria Luisa Mendonça, Djin Sganzerla e Simone Spoladore.
Beijo Bandido
Ainda em 2009, lançou o álbum "Beijo Bandido", com um repertório composto de canções mais introspectivas e românticas, como "Invento", do compositor gaúcho Vitor Rammil. O trabalho contou com os arranjos de Leandro Braga e teve a participação dos músicos Lui Coimbra (cello e violão), Ricardo Amado (violino e bandolim) e Felipe Roseno (percussão). O álbum resultou na gravação do CD/DVD "Beijo Bandido - Ao Vivo", registrado em show realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Atento aos Sinais
Em 2013, Ney estreou a turnê "Atento aos Sinais", cujo repertório trazia interpretações de composições de uma nova geração de compositores, como Dani Black, Vitor Pirralho, Dan Nakagawa e Rafael Rocha (do grupo carioca Tono), além de interpretar grandes clássicos de Caetano Veloso, Paulinho da Viola e Itamar Assumpção. Ainda nesse ano, lançou o CD homônimo, que trazia as canções interpretadas na turnê, como "Noite Torta" (Itamar Assumpção), "Roendo as Unhas" (Paulinho da Viola), "Oração" (Dani Black) e muitas outras. No ano seguinte, lançou o DVD "Atento aos Sinais", gravado durante a turnê de 2013 e dirigido por Felipe Nepomuceno. O trabalho conquistou o 26º Prêmio da Música Brasileira.
Rock in Rio - 30 Anos
Em 2015, Ney Matogrosso foi uma das atrações do show em homenagem aos 30 anos do Rock in Rio, realizado no Palco Mundo na primeira noite do festival. Dirigido por Dinho Ouro Preto e pelo produtor Marco Mazzola, o show contou com a presença de outros músicos que participaram da primeira edição do festival, em 1985, como Frejat, Blitz e Titãs.
Homenagens
Em 2016, a Warner Music lançou a caixa comemorativa "Anos 70" com reedições dos seus seis primeiros álbuns após sua saída do Secos e Molhados: "Água do Céu-Pássaro", "Bandido", "Pecado", "Feitiço", "Seu Tipo" e "Sujeito Estranho". No ano seguinte, foi o homenageado da noite no 28º Prêmio da Música Brasileira, realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com apresentação de Maitê Proença e Zélia Duncan. No palco, Ney Matogrosso apresentou cinco músicas que marcaram sua carreira, incluindo "Rosa de Hiroshima" (Vinícius de Moraes e Gerson Conrad), "Pro Dia Nascer Feliz" (Cazuza e Frejat) e "Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos e Dora Vasconcellos). A homenagem contou com as participações de Chico Buarque, em "As Vitrines", Ivete Sangalo em "Sangue Lantino", Alice Caymmi e Laila Garin interpretando "Bomba H", Lenine com "Bicho de Sete Cabeças II", Pedro Luís com "O Mundo", Karol Conka em versão de "Homem com H" e BaianaSystem fechando com "Inclassificáveis".
Fonte: Site oficial Ney Matogrosso e Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.