Infância
Ai Weiwei é filho da escritora Gao Ying e do poeta Ai Qing. Seu pai era bastante conhecido na China e foi preso, antes do nascimento de Weiwei, durante o Governo Nacionalista, sob a acusação de fazer parte da Esquerda. Após a fundação da República Popular da China, Ai Qing foi acusado novamente, desta vez de ser direitista, durante a Campanha Antidireitista do líder chinês Mao Tsé-Tung. A família foi exilada quando Weiwei tinha apenas um ano. A arte poética de seu pai e a precária situação política de sua família teriam um profundo efeito na vida do artista.
A família viveu no exílio durante 20 anos em pequenas vilas na região de fronteira com a Coréia do Norte e na província de Xinjiang, onde seu pai foi forçado a realizar trabalhos pesados, incluindo a limpeza de banheiros públicos. Para sobreviver, Weiwei aprendeu diversas habilidades manuais que ele usaria posteriormente em sua arte, como fabricar móveis e tijolos. Ele conta que em sua infância “as condições de vida eram extremamente precárias e a educação praticamente não existia”. A família só conseguiu manter um único livro, uma grande enciclopédia, que se tornou a única fonte de informação e educação de Weiwei.
Treinamento Inicial
Ai Qing e sua família foram autorizados a retornar do exílio após a morte de Mao, em 1976. Isso permitiu que o jovem Weiwei, com 19 anos, pudesse se matricular na Beijing Film Academy para estudar animação. Após alguns anos, Weiwei começou a se envolver com a cena artística clandestina de Pequim e se tornou um dos primeiros integrantes do The Stars, um grupo político revolucionário formado por artistas que buscavam a reintrodução da arte como forma de expressão pessoal na China, após décadas da política implementada por Mao, que utilizava a arte para atender somente os interesses comunistas do Estado. Nessa mesma época, participou de diversos protestos e marchas pró-democracia.
Em 1981, Weiwei se mudou para os Estados Unidos e estudou em diversas instituições buscando aprimorar o seu inglês. Ele acabou se mudando para Nova York em 1982, onde se tornou aluno do artista Sean Scully na Parsons School for Design. Weiwei abandonou o curso após seis meses e decidiu tentar ganhar a vida atuando como artista de rua e realizando trabalhos esporádicos.
Weiwei passou 11 anos em Nova York fotografando a cidade imerso na cena artística contemporânea. As fotos posteriormente se transformariam no projeto “New York Photographs (1983-1993). Nessa mesma época, conheceu e se tornou amigo do poeta Allen Ginsberg, que já havia conhecido o seu pai durante uma viagem para a China.
Durante esse período, viajou pelos Estados Unidos e se interessou pelo blackjack jogado nos cassinos de Atlanta. Ele se tornou tão adepto do jogo, que os jogadores americanos de blackjack o reconhecem, em primeiro lugar, como jogador profissional, e não como artista.
Maturidade
Sua primeira exposição solo, chamada “Old Shoes, Safe Sex”, aconteceu em 1988, na Galeria Art Waves/Ethan Cohen, em Nova York. Cinco anos depois, seu pai adoeceu e Weiwei retornou à Pequim. Enquanto estava na cidade, produziu três livros baseados em entrevistas feitas com alguns dos seus artistas ocidentais favoritos, incluindo Marcel Duchamp, Andy Warhol e Jeff Koons, estabelecendo conexões entre essa geração mais antiga de artistas e uma geração emergente de iconoclastas (incluindo ele mesmo) de Pequim.
Após a morte de seu pai, em 1996, Weiwei mergulhou em uma prática tradicional chinesa que aprendeu com o pai e passou a metade final daquela década fabricando móveis. Apesar de não ter nenhum treinamento formal em arquitetura, Weiwei construiu a própria casa, em 1999, e um estúdio no norte de Pequim e em 2003, estabeleceu uma prática arquitetônica chamada “FAKE Design”.
O ano de 1999 foi um divisor de águas na vida e na carreira de Weiwei, quando foi escolhido para representar a China na Venice Bienalle. O convite foi um marco de alta honra e distinção geopolítica que o colocou em destaque no cenário internacional. Nesse mesmo ano, foi um dos curadores da exposição “F**k Off”, realizada em Xangai, que chamou a atenção do governo chinês de forma negativa. Isso porque, desde os anos 70, haviam regras rigorosas impostas pelo Estado para controlar a arte chinesa. De acordo com as diretrizes do governo, a arte deveria ser representativa, respeitosa e celebrar a vida das pessoas comuns que prosperam sob o comunismo, o que ficou conhecido internacionalmente como Realismo Socialista Soviético.
É impossível, portanto, superestimar o impacto sensacional dessa exposição que exibia os trabalhos de um artista recém convidado para representar o país na Venice Biennale, e de outros artistas conceituais chineses que não só quebraram as regras impostas pelo governo, como também mandaram um recado que não poderia ter sido mais contundente: “Nós tínhamos que nos pronunciar como artistas individuais”, diz Weiwei, “e o que nós dissemos foi ‘F**k off’’.
Trabalho Atual
Weiwei sempre foi um ativista político. Desde 1999, porém, sua visibilidade com o grande público, tanto no Ocidente quanto na China, foi encarada como uma constante ameaça pelos oficiais do governo chinês. As medidas drásticas realizadas por parte do governo para tentar limitar sua comunicação com o grande público o motivaram, paradoxalmente, a criar uma série de projetos ambiciosos que abordavam, diretamente, temas politicamente sensíveis na China, como a internet, sujeita a regulamentações governamentais que limitam o acesso a diversos sites, incluindo o Google.
Em 2005, Weiwei passou a se expressar através de um blog, criado em parceria com a empresa chinesa de tecnologia Sina. Em 2009, o blog que, na época, recebia cerca de 100 mil visitas por dia, foi tirado do ar pelo governo chinês. O artista, então, começou a escrever no Twitter, conquistando exposição internacional e uma grande presença online, o que confirmou sua convicção pessoal de que os artistas precisam permanecer em contato com o seu público: “como artista, você tem a obrigação de dizer para as pessoas o que você está pensando e porque você está fazendo tal coisa”.
Um dos seus projetos mais famosos foi a criação do design do Estádio Olímpico de Pequim, popularmente conhecido como “Ninho de Pássaro”, para as Olimpíadas de 2008. Segundo Weiwei, a estrutura, concluída em parceria com os arquitetos suíços Herzog & de Meuron, foi projetada com a intenção de provocar uma sensação de igualdade e justiça. Na imprensa internacional, o artista criticou abertamente o governo chinês, citando as preocupações de que sediar as Olimpíadas só iriam aumentar o abuso de poder do governo.
Este projeto aumentou ainda mais a fama internacional do artista e deteriorou seu relacionamento com as autoridades chinesas. Ele se tornou, de longe, o mais famoso e aclamado artista chinês no Ocidente.
Após o terremoto de Sichuan, em maio de 2008, em uma série de posts inflamados no Twitter, Weiwei expressou toda sua indignação pela morte de milhares de crianças devido à construção de edifícios escolares de má qualidade na região, um indício da corrupção do governo.
Na esperança de empurrar essa vergonha nacional para debaixo do tapete, os oficiais do governo não divulgaram o número oficial de vítimas (mais de 5 mil mortes, de acordo com as estimativas mais recentes) e Weiwei iniciou uma investigação independente, evidenciando os fatos e provas relacionados à tragédia. A investigação foi interrompida ainda em 2008, quando a polícia invadiu seu quarto de hotel em Chengdu e o agrediu, deixando o artista hospitalizado com uma hemorragia cerebral.
Desde então, o governo chinês tomou mais medidas para limitar as liberdades de ir e vir e de expressão do artista, tanto dentro como fora do país. Em 2010, ele foi colocado em prisão domiciliar por várias semanas; em 2011 ele foi proibido de utilizar o Twitter e câmeras de vigilância foram instaladas em sua casa. Ainda em 2011, ele foi detido no Aeroporto Internacional de Pequim e preso sem qualquer acusação formal, somente com a justificativa de ter cometido crimes financeiros. Enquanto isso, o mundo artístico ocidental acompanhava horrorizado e se mobilizou, ao lado de grupos internacionais de direitos humanos, para ajudar o artista. Após 81 dias, Weiwei foi libertado e multado no valor de US$ 1.5 milhões de dólares. A multa foi paga com a mobilização de simpatizantes chineses e estrangeiros que se uniram para levantar os fundos para pagar o que o governo chinês alegava ser devido.
Em julho de 2015, ele finalmente recebeu um passaporte internacional. Apesar da sua reputação internacional não o proteger de punições severas pelo governo chinês, sua libertação só foi possível através de crescentes pressões diplomáticas de diversos países democráticos após sua situação se tornar conhecida globalmente.
Legado
A influência de Weiwei é indiscutivelmente maior no Ocidente do que na China, onde ele continua sendo uma figura controversa. O artista é reverenciado, de forma quase universal, na Europa e nos Estados Unidos, tanto como artista quanto como ativista político, e abriu o caminho para um maior reconhecimento da cultura contemporânea chinesa na comunidade internacional.
Alguns de seus trabalhos mais recentes foram ações simples desenvolvidas para chamar a atenção às crises humanitárias. Em 2015, realizou uma apresentação impressionante em que posou como a criança refugiada que apareceu morta na costa da Turquia. Quando viu uma refugiada síria em um campo na Grécia dizer que sentia falta de seu piano, Weiwei levou um para ela e filmou sua performance. Os esforços humanitários do artista, realizados em escala cada vez mais global, são voltados para aqueles que vivem na pobreza e/ou sob opressão e que, de outro modo, não teriam voz.
Weiwei é uma figura inspiradora para inúmeras pessoas tanto no Ocidente quanto na China, dentro ou fora do universo artístico. A luta do artista pela liberdade de expressão ajuda a esclarecer questões que são importantes por si só. De modo geral, nos faz lembrar do poder que as artes visuais têm de nos levar a agir como indivíduos e, às vezes, como nações inteiras. O trabalho de Weiwei ressalta a ideia de que a arte tem o poder e, até a responsabilidade, de mudar a sociedade.
Integrantes do público geral e da mais ampla comunidade artística continuam a apoiá-lo. Suas mensagens enigmáticas no Instagram e Twitter levam os seus seguidores a participar no processo criativo respondendo a uma série de manifestações digitais de solidariedade política e artística que, por sua vez, se devem à sua abordagem da arte como prática social.
Em outubro de 2015, por exemplo, quando a Lego se recusou a fornecer uma grande remessa de blocos de montar ao artista (sob a alegação de que não apoiam artes políticas), centenas de seus seguidores lhe enviaram seus próprios Legos, por correio ou em pontos de coleta oficiais. Todo o evento foi organizado através das redes sociais.
Inúmeros artistas que trabalham com diversas formas de mídia, na China e em outros países, já foram impactados pelo ativismo destemido e o conceitualismo expressivo de Weiwei. Entre esses artistas estão Huang Rui, cujos trabalhos incluem performances provocativas baseadas na relação da China com o Ocidente. As instalações conceituais políticas de Xu Qu são diretamente inspiradas pelo trabalho de Weiwei.
Como uma figura controversa e de grande importância (bem como um exemplo de quão perigoso o ativismo político pode ser), é possível que o ativismo de Weiwei possa ter criado uma visão negativa da arte política para uma nova geração de jovens artistas chineses que se distanciaram da política contemporânea, alegando conhecerem uma China diferente da que foi vivenciada por Weiwei, afirmando que a arte política pertence a uma geração mais antiga.
Fonte: The Art Story