Catto está vivendo um dos momentos mais profundos da carreira. A cantora, designer, compositora e instrumentista trans não-binária, natural de Porto Alegre, celebra a maturidade artística após o lançamento de Caminhos Selvagens, seu álbum autoral que levou cerca de sete anos para ganhar forma.
Conhecida por ter integrado a trilha da novela Cordel Encantado e por emocionar o público com Belezas São Coisas Acesas Por Dentro, disco em que revisita a obra de Gal Costa. A cantora conversou com o Headliner sobre transformação, referências, liberdade criativa e os caminhos que a levaram até aqui.
Confira!
A gente sabe que Caminhos Selvagens já está quase fazendo um ano de vida. E hoje olhando pra trás você sente que esses caminhos estão te levando pra onde? Muda alguma coisa pra você nesse percurso?
Muda tudo. Muda tudo. Acho que Caminhos Selvagens é um disco que me fez amarrar todas as pontas. Eu já fiz muita coisa na minha carreira, né? Eu sou uma pessoa muito curiosa e intensa, mas faltava, eu acho, fazer um disco em que eu tivesse a concepção inteira, desde a primeira frase até o último detalhe.
Então, acredito que seja um trabalho muito, muito profundo e visceral, que me transformou completamente. É um projeto que, pessoalmente, me deixou muito mais realizada e, para o público, acho que é uma forma de as pessoas me conhecerem de maneira mais profunda.
Antes de Caminhos Selvagens, você mergulha fundo na obra da Gal Costa. De onde veio essa vontade de revisitar a Gal. O que essa imersão mudou na sua forma de cantar ou de se enxergar como artista?
A Gal sempre foi uma das minhas maiores e mais completas influências como cantora.
Acho que ela é uma grande professora de todas as cantoras, porque tem uma excelência técnica absurda. E não só isso, acredito que tenha o melhor repertório entre as cantoras brasileiras, pois, para mim, ela interpretou as músicas mais poéticas. O trabalho dela é um compilado dessa poesia, desse lirismo, desse universo todo da Gal que eu amo.
O show, na verdade, foi uma encomenda, um convite do Sesc São Paulo para que a gente o realizasse. Quando estreou, dava para perceber que aquilo era muito mais do que apenas um show, era realmente um encontro meu com a poesia da Gal, com a poesia que aquelas músicas apresentavam.
Naquele momento, eu estava vivendo uma revolução muito pessoal, um desbunde intenso, como a Gal também propunha nos discos dos anos 60 e 70. Então, acho que foi aquela coisa que a gente chama de dedo de Deus, o momento em que a artista encontra a obra certa, na hora certa.
Você também já mergulhou no repertório da Rita Lee, em um especial só dela, e o que a Gal e a Rita têm em comum pra você e onde elas se encontram com a Catto?
Nossa, são roqueiras, né, amor? E pra mim a Gal Costa é uma cantora de rock. Eu tenho a Gal como uma das mais importantes mulheres do rock nacional. Entre muitas coisas que a Gal fez, ela tem uma força na cultura pop rock enorme e a Rita Lee também. Eu acho que eu sou uma pupila dessas grandes feiticeiras transgressoras livres.
Eu acho que o papel da mulher no Brasil, na música, sempre foi uma coisa tão estereotipada. E Gal Costa, Rita Lee e a Cássia Eller também, são artistas que botaram tudo pra f****.
Tem algum artista que você gostaria de homenagear, mas não como um tributo mas um feat?
Eu acho que a pessoa por quem eu tenho mais reverência hoje é a Marina Lima, que é uma grande amiga minha. Então, não é nem só a vontade de fazer um feat com a Marina. Existe uma naturalidade, uma entrega, uma intimidade, uma reverência que eu tenho por ela. Para mim, é uma grande sorte poder estar perto da Marina, aprender com ela e ter essa convivência tão rica e bonita. Eu a acho a maior de todas.
Além da música, você também cria imagem, design e já acertou com a atuação. Eu queria saber se esses caminhos seguem vivos em você e se a gente ainda vai ver a Catto correndo por esses territórios.
Eu acho que o trabalho na música me impede de fazer várias outras coisas. Eu adoraria, por exemplo, voltar ao teatro. Queria muito retomar isso, mas, dentro da minha realidade hoje, não é algo que eu consiga encaixar na minha rotina, é difícil mesmo. São escolhas. Vontade eu tenho, mas também acredito que, graças às deusas, no nosso trabalho de artista, quanto mais a gente vive, mais as coisas acontecem no seu tempo certo.
Já a parte visual, trabalhar com imagem e com vídeos, isso sempre. Eu fiz e continuarei fazendo ao longo da minha carreira, porque é isso que também traduz a minha música. A minha música é um encontro com o visual, e é isso que faz com que tudo tenha sentido.