Paulo Vilhena, Duda Reis e Vittor Fernando se juntam nos palcos para uma nova montagem de “Qualquer Gato Vira-Lata Tem uma Vida Sexual Mais Sadia que a Nossa”, comédia romântica de Juca de Oliveira que atravessa gerações. A peça estreou no início de março e segue em cartaz até 26 de abril no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, em São Paulo. Os ingressos estão disponíveis na plataforma Eventim.
Antes de uma das sessões, o elenco bateu um papo exclusivo com o Headliner sobre a peça, romance e muito mais. Confira!
A peça foi escrita nos anos 90 e continua super atual. Na visão de vocês, o que no comportamento amoroso das pessoas simplesmente não mudou em quase 30 anos?
Vittor: Nossa, que pergunta profunda! [risos]
Duda: Gente, passa-se o tempo, né? E sempre existe um hétero top aí ainda. Um macho chatonildo, pentelho. [risos]
Vittor: Um esquerdomacho, que a gente chama hoje em dia. [risos]. Eu acho que ainda é uma luta. A Duda vai falar melhor do que eu, mas é uma luta da vivência da mulher que ainda está em progresso. Mesmo tendo passado tanto tempo e muitas coisas mudarem para o positivo, ainda existem muitas coisas negativas que devem ser revistas. Claro que, na peça, a gente faz isso com muito bom humor, mas falando de sociedade, é uma luta que ainda não acabou. E a gente não sabe quando vai acabar, mas o importante é ter o progresso. Por isso que é uma releitura, é bem diferente da outra, então tem algumas coisas que mudaram, mas o X da questão ali ainda não mudou.
Paulo: Eu acho que tem alguma coisa relacionada ao que um quer e o outro, às vezes, não ouve. Às vezes o outro quer se impor, colocar as suas vontades. Esse é o grande dilema do relacionamento, é você poder ceder, se entregar ao outro e, ao mesmo tempo, receber em troca.
Vittor: Acho que a expectativa de idealização não mudou, as pessoas continuam idealizando uma forma perfeita de se relacionar.
Duda: Um par perfeito, a forma perfeita de se relacionar. E, no final, não existe regra, né?
Vittor: É, a gente acaba se apaixonando e tendo que aprender a lidar. Claro que a gente foge de um ou outro. [risos]. Mas eu acho que é isso que não mudou, essa expectativa de idealização, de como tem que acontecer, se eu fizer isso, isso vai acontecer, o joguinho…
E se essa história acontecesse hoje em dia com as redes sociais, vocês acham que seria mais fácil ou mais complicada a história?
Duda: Não sei, eu só sei que ia bombar. E com certeza um desses integrantes seria chamado pro BBB depois. Eu acho que seria isso.
Vittor: A história tem um pouco disso, dessa modernidade, dos dias de hoje. De se falar por mensagem, de se ligar, Não que antes não tinha, mas…
Duda: De pesquisar no TikTok.
Vittor: É, de ser uma it girl do mundo atual. De formas diferentes, né? Porque eu acho que a antiga era mais voltada para uma revista de moda. A atual, ela vê videozinhos de arrume-se comigo no TikTok. Acho que isso responde um pouco da primeira pergunta também. Eu acho que a forma de se relacionar mudou também, dos anos 90 pra hoje. Muita coisa mudou por conta das redes sociais e tecnologia.
Paulo: Absolutamente. Antes era correio elegante!
Vittor: É, antes não tinha briga por like. A gente não queria inspecionar o celular de ninguém. Hoje em dia, a gente quer!
Paulo: Ele telefonava pelo orelhão. As ligações eram raríssimas para conseguir falar com quem você estava interessado.
Vittor: Já era uma prova de amor.
Paulo: Já. E assim, dificílima.
Vittor: Hoje em dia, a prova é responder na hora. Porque é difícil também responder na hora.
A peça gira em torno de um triângulo amoroso. Como foi construir essa química entre vocês três?
Paulo: Eu acho que foi rápido, né? A gente sabia que tinha pouco tempo também para fazer a peça.
Vitor: Teve que ser rápido! Zoeira. [risos]
Paulo: E a gente se entrosou muito bem. Foi leve, foi rápido. Gostoso.
Vittor: Acho que desde a primeira leitura a gente se deu muito bem e sentiu que ía rolar essa química entre todos nós.
Duda: Está sendo muito gostoso. Vocês têm que vir assistir, gente.
Paulo: A coxia é algo muito importante no teatro, né? A gente ter esse momento aqui antes da peça, depois da peça, e estar leve, tranquilo, é muito bom.
Vittor: É, principalmente se tratando de comédia. Desde o primeiro dia a gente brinca, a gente zoa um ao outro. Então acho que isso aproximou a gente.
Duda: A nossa maior dificuldade nunca foi não se conectar. Às vezes a dificuldade é que a gente é tão conectado que é difícil segurar o riso, sabe? [risos]
Vittor: A gente tomou muita bronca do diretor. Porque a gente era tão conectado que a gente ficava rindo da cena do outro. Passando mal da cena e era um ensaio mais sério. [risos]
Paulo: Era a famosa turma do fundão.
Em algum momento vocês se pegaram pensando: “Eu já fui esse personagem”? (Não necessariamente o seu)
Duda, Paulo e Vittor: Já.
Vittor: Qual?
Paulo: Ah, eu já fui todos.
Duda: Também.
Vittor: Eu acho que eu não fui todos, não.
Paulo: Eu fui.
Duda: Um pouquinho de cada, amigo. Todo mundo tem um pouquinho de cada.
Vittor: Tá bom, Du, já que você tá dizendo. Já que você me conhece tão bem. [risos]
Duda: Conheço.
Paulo: O ser humano é múltiplo, né? Ele é multifacetado. E aí, além disso, a gente também tem um processo de evolução. Desde a nossa juventude, adolescência, até hoje, a maturidade. É um processo longo de amadurecimento.
Vittor: Ah, sim. Fases da vida, momentos.
Paulo: E as fases da vida acho que se encontram com os personagens em vários momentos.
Vittor: É, eu acho que todo mundo se identifica com todos em algum momento.
Vocês se consideram bons em dar conselhos amorosos ou são do tipo que só faz besteira?
Vittor: Eu acho a Duda boa para dar conselho amoroso. [risos]
Duda: Ai, amei! Eu ia responder uma coisa mais misteriosa, tipo, “veremos…”
Vittor: E você não vai falar que eu sou?
[Todos riem]
Duda: Você também é muito bom, Vittor!
Vittor: Obrigado, Duda. Muito bom.
Paulo: Que conselhos são esses que você anda pedindo para a Duda?
Vittor: A gente sempre, né?... [risos]
Paulo: Tem que trazer algo novo né? Um frescor.
Vittor: Você (Paulo) se considera.
Paulo: Um bom conselheiro amoroso?
Vittor: É.
Paulo: Cara, eu sou muito direto com os meus amigos. Eu também não quero ficar me metendo naquele famoso ditado, né? Em briga de marido e mulher, não fica metendo a colher. Mas eu gosto de ajudar.
Duda e Vittor: A gente mete a colher.
Duda: É um defeito mesmo. Preciso melhorar.
Vittor: Não é, mas eu acho que também quando a pessoa quer desabafar, a gente está aqui.
Paulo, você ficou um tempo longe do teatro. Por que essa peça foi a que te fez voltar?
Paulo: Foi essa peça que me encontrou. Eu estava num processo de voltar ao trabalho, depois do casamento, da paternidade. E nesse movimento eu tinha começado a escrever um texto sobre paternidade. E aí eu procurei o [Sandro] Chaim pra trocar uma ideia, falar a respeito do texto, ver se havia a possibilidade da gente montar e fazer um estudo mais aprofundado. E ele me contou do ‘Qualquer Gato’. Quer dizer, de uma trilogia que ele faria esse ano do Juca de Oliveira: ‘Qualquer Gato’, ‘Caixa 2’ e ‘Baixa Sociedade’. E ‘Gato’ é um texto que já tinha me chamado pra fazer a adaptação para o cinema. Eu fui convidado nos anos 2000 e era pra fazer o Marcelo (personagem do Vittor).
Vittor: Que loucura!
Paulo: Só que eu já vinha fazendo vários personagens tipo Marcelo na televisão. E eu queria fazer o Conrado. E aí eu falei pro diretor: “Diretor, dá pra fazer o Conrado?”. E ele disse que eu era muito novo. E aí nesse papo vai e vem, o Sandro falou do Gato. e eu queria fazer um Juca de Oliveira, nunca tinha feito. E a gente foi se juntando, se aproximando, e fizemos.
Duda, interpretar a Tati te fez olhar pra alguma coisa da sua própria vida de um jeito diferente?
Duda: Acho que toda mulher se identifica com a Tati. E tem muito da Tati em mim também. Porque a Tati começa a peça mais fragilizada e vai se empoderando. E eu me reconheço muito nesse lugar, de anos atrás ter sido uma menina, uma mulher mais frágil. E nesse processo de autoconhecimento, você se encontra como mulher, como pessoa. E se fortalecendo mesmo. Então eu me identifico muito nesse lugar. Até que você vira, de fato, a autora da sua própria história, sua própria protagonista.
Vittor, o que te surpreendeu no teatro?
Vittor: Eu fiz teatro a vida inteira e depois comecei a trabalhar com internet na pandemia. E aí foi parecido com o Paulinho. Quando o Chaim me convidou pra fazer a peça, eu fiquei muito surpreso. A gente já estava conversando sobre um outro projeto e aí ele falou de ‘Qualquer Gato Vira Lata’. E eu falei... Cara, vai ser muito legal fazer o Marcelo. Acho que é um universo muito distante do meu. Então eu fiquei muito feliz e falei “Quero fazer!”, porque eu gosto justamente de fazer personagens que me desconstroem, que vão para um caminho muito diferente do que eu sou na vida. E foi muito emocionante quando a gente entrou numa sala de ensaio, depois de eu ter ficado a pandemia inteira mais focado em audiovisual e internet. No teatro eu não tinha pisado mais. E aí eu pisei... E ainda pisando para fazer comédia, que é uma coisa que eu amo. Eu fiquei super emocionado.