Teatro

Headliner Entrevista: Bianca Bin e Sergio Guizé estrelam peça 'Meu Deus!'

27.07.2026 por Aline Aoki e Giulia Bressani
Sergio Guize e Bianca Bin em cena da peça Meu Deus!
Sergio Guizé estrelam nova montagem da peça 'Meu Deus!' (Foto: Headliner Brasil)

Bianca Bin e Sergio Guizé subiram aos palcos na última sexta-feira (24) para a estreia de uma nova montagem do espetáculo Meu Deus um texto original de Anat Gov e direção de Elias Andreato.

A peça narra uma sessão de terapia entre a psicóloga Ana e Deus, que liga desesperado buscando ajuda ao se encontrar profundamente deprimido com a situação da humanidade que ele mesmo criou.

O texto de 2008 já foi apresentado em diversos países e teve sua primeira montagem em 2014 e volta aos palcos 12 anos mais tarde, mostrando que seus temas seguem universais e mais atuais do que nunca, abordando assuntos que vão do ateísmo ao fanatismo religioso e levantando questões profundas sobre a humanidade e nossas próprias responsabilidades.

Elias Andreato dirigiu a primeira montagem com Dan Stulbach e Irene Ravache, e agora está de volta com Bin e Guizé no Teatro das Artes, em São Paulo, com uma temporada que se estende até novembro. Os ingressos estão disponíveis na plataforma Eventim.

Pouco antes da estreia, Bianca e Sergio bateram um papo exclusivo com o Headliner sobre o novo projeto e suas expectativas para a temporada. Confira!

Bianca, como foi para construir o seu personagem? Se você teve alguma referência de psicóloga real, como foi esse processo de criação do personagem?

Eu faço terapia há alguns anos já, agora vivo uma terapeuta, aliás, esse tema tem sido recorrente no palco para mim, porque acabo de sair de uma sessão de terapia e estou entrando em outra, mas na antiga eu era analisada, uma moderadora de conteúdo, e nessa eu sou a terapeuta e tenho um paciente muito inesperado, acho que é o maior desafio da minha carreira, que é Deus em crise, Deus doente, Deus deprimido, e ele só me dá uma sessão para ajudá-lo a enfrentar esse problema, essa crise com a própria criação, com os rumos da humanidade. Eu acho que a gente de tanto fazer terapia e peça que fala sobre saúde mental e terapia, acaba virando um pouquinho terapeuta também. Mas a minha preparação acho que é mais me apropriar do texto que está sendo dito, é um texto, uma dramaturgia muito bem estruturada, muito bem construída pela Nath Gove, a nossa autora maravilhosa, e são palavras que eu, Bianca, gostaria de dizer, mas nunca consegui organizar. E a Ana fala por mim, um texto inteligente, engraçado, mas que ao mesmo tempo que te faz rir, traz perguntas existentes. existenciais profundas, e é isso, eu acho que a minha preparação foi me aproximar, me apropriar cada vez mais desse texto, porque são questões humanas, que são da Ana, mas minhas também, da Bianca.

Sergio, como foi construir esse personagem Deus, como foi esse processo?

Esse é o trabalho da psicóloga, é o mais difícil. É difícil essa sessão de terapia com Deus, para mim também, na minha carreira, você interpretar Deus, porque eu acho que cada um tem o seu Deus, e o maravilhoso de fazer teatro é como na literatura mesmo também, o pouco que eu li da Bíblia, quando você lê, você imagina um Deus e cria o seu próprio Deus no teatro, tem essa possibilidade, a gente vai contando uma história, como não está tudo definido, como no audiovisual, cada um vai criando ali. Eu acho que esse Deus é uma alegoria, então tiramos ele do altar, para colocar ele no divã e discutir questões humanas e urgentes, que eu também gostaria de discutir, que é a fé sem levantar bandeira, a saúde mental, a empatia, a escuta, então eu acredito que é quase…a escuta, então eu acredito que é quase esse Deus é você olhar para o espelho, são questões que me atravessam e que eu tenho vontade de discutir, como a Bianca disse, eu como Sérgio Guizé, talvez eu não conseguiria levantar essas questões tão urgentes, como a fé mesmo, a fé de cada um, o diálogo, o respeito, a empatia, a escuta, é maravilhoso poder jogar essas frases no ar aqui e sentir o público como o público de hoje, recebendo e refletindo sobre.

Se você estivesse em uma sessão de terapia com Deus, qual pergunta vocês fariam para Ele?

Bianca: Eu acho que seria, Senhor, o que fazemos? Nos dê ferramentas, Deus deve ter mais ferramentas do que o próprio Freud, óbvio que tem, então eu acho que eu pediria ajuda também para lidar, com tanta violência, com tanto ódio, com tanta dessensibilização do mal.

Sergio: Eu acho que eu ia pedir para Deus acabar com as guerras, guerras e armas, eu ia falar, por favor, pode me pedir qualquer coisa que eu vou fazer, mas acabe com as armas e com as guerras, eu acho que seria isso. 

Bianca: E para não só dar demanda para esse terapeuta, eu gostaria de agradecer também ele nesta sessão, porque sem essa participação... parceria, Eu não teria chegado até aqui, não estaria vivendo essa experiência maravilhosa, que é estar no palco com Sergio Guizé, ser dirigida por Elias Andreato, num texto tão maravilhoso como esse, Meu Deus!

Sergio: Tinha que agradecer mesmo, você está certa [risos], tem que agradecer, olha que maravilha, que privilégio, saúde, abundância, teatro lotado como hoje, sempre.

E qual é a principal reflexão que vocês querem que o público leve para casa? 

Sergio: Que a vida é um presente, que o presente é um presente, não importa o que aconteceu, o que vale é daqui para frente fazer boas escolhas, dizer sim.

Bianca: E apesar de tudo, a gente deve seguir resistindo, acreditando na compaixão, no poder transformador do afeto, do encontro humano e na esperança.

Elias Andreato, Bianca Bin e Sergio Guizé sentados e cadeiras no palco do espetáculo Meu Deus
Elias Andreato, Bianca Bin e Sergio Guizé em coletiva de imprensa da peça 'Meu Deus!' (Foto: Headliner Brasil)


Coletiva de imprensa

Na quarta-feira (22),diretor e elenco receberam a imprensa para passar algumas cenas e responder algumas perguntas sobre a nova montagem, que Elias afirmou estar mais atual do que nunca.

“Estamos em 2026 e muita coisa mudou. Tudo ficou mais violento, mais comunicado, o celular passou a ter importância nas nossas vidas. E esse discurso da autora hoje em dia me parece muito mais impactante”, disse Elias durante uma coletiva de imprensa sobre ‘Meu Deus’. “Quando eu fiz essa montagem lá atrás com a Irene e o Dan, eu não me lembro do texto ter me impactado tanto. Não que eu tenha tido uma visão mediana ou rasteira naquela época, mas o texto hoje me pega de um jeito diferente.”

Bianca dá vida a Ana, uma psicóloga ateia e mãe solo de um filho adolescente autista, que se encontra em uma situação inesperada ao ter que fazer uma consulta de emergência com um homem que se diz ser Deus.

“A Ana simboliza exatamente a humanidade contemporânea. Representar essa personagem é se aproximar cada vez mais da minha própria humanidade. Eu não sou mãe, não sou mãe solo, mas consigo me colocar na circunstância e imaginar o quanto essa mulher é sobrecarregada, o quanto ela está exausta, descrente, o quanto ela se sente ferida e o quanto ela carrega o mundo nas mãos, assim como as mulheres que a gente conhece e que são próximas a nós”, disse.

Sérgio também falou sobre a oportunidade de interpretar um papel tão importante: “A possibilidade de interpretar Deus já é algo maravilhoso. Eu sabia que seria uma alegoria de Deus, que ia representar muita coisa e não o Deus que tentaram me ensinar na infância, aquele da barba branca. Na verdade, ele é um homem frágil que vem para discutir nossas próprias fragilidades. A genialidade da autora é tirá-lo do altar e colocá-lo no divã para levantar essas questões de fé e saúde mental”

Com temas delicados, diretor e elenco entendem a possibilidade de nem todo público gostar da peça, mas defendem a importância do assunto independentemente das possíveis reações.

“É um texto que tem uma partitura muito complexa. Tem humor, leveza, romantismo. Hoje em dia, um abraço é um ato político e você finalizar uma peça com um abraço, acho que só isso já está bom. A gente está exposto; a pessoa pode gostar ou não, pode achar que faria diferente”, disse Elias. “Às vezes a gente faz muito espetáculo para a bolha, para se experimentar, transpirar, ficar louco. Mas às vezes, uma peça de sofá nos ensina muito mais do que qualquer loucura porque você tem que lidar com o simples, a delicadeza, a violência, tudo ao mesmo tempo, sem perder o tom e sem perder o espectador. E não é que a gente tenha que se vender para o público. Quem comanda o jogo somos nós; por mais que você queira rir, eu não posso entrar na sua, porque, senão, eu perco a delicadeza ou a intenção do autor. Mas eu tenho que pensar em você. Tem que fazer parte desse jogo. Eu acho que essa dramaturgia é muito propícia. Eu sempre falei tanto pro Guizé como pra Bianca que é um grande exercício como ator.” 
 

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