A corrupção política no Brasil é o tema central da nova montagem de Caixa 2, que está em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo, até o fim de maio, com ingressos à venda na plataforma Eventim.
Dirigida por Alexandre Reinecke e escrita por Juca de Oliveira nos anos 90, a comédia satiriza os bastidores do poder ao acompanhar um banqueiro envolvido em um esquema de dinheiro não declarado, dando início a uma sequência de situações absurdas, alianças improváveis e tentativas desesperadas de acobertamento.
Com um elenco formado por Paulo Gorgulho, Cassio Scapin, Taumaturgo Ferreira, Sophia Abrahão, Flávia Garrafa e Gabriel Vivan, a peça aposta no humor e na ironia para discutir temas ainda extremamente atuais, mostrando como a corrupção pode estar mais presente e naturalizada do que parece.
Em entrevista ao Headliner, o elenco falou sobre os bastidores da montagem, os desafios de assumir grandes papéis no teatro e a recepção do público.
Confira!
Como surgiu o convite para cada um de vocês fazer parte da peça?
Cassio Scapin: O convite surgiu por meio do Sandro Chaim, produtor do espetáculo, que me mandou o texto para ler. Na época, era uma versão anterior que ainda precisava de ajustes, porque a montagem que fazemos hoje é completamente diferente. É o mesmo texto, mas os dilemas passam por outros caminhos. Os temas continuam os mesmos, falando sobre corrupção no país, o que todo brasileiro sabe o que a gente está vivendo, mas está em outro contexto. É uma outra peça com a mesma linha. Então ele me mandou o texto para ler e falei ‘com essas alterações dá para a gente fazer’. E o Reinecke eu já conhecia de outros carnavais, aí ele falou: "Cacinho, vamos fazer". E hoje estamos aqui com essa gente linda.
Flávia Garrafa: Eu também recebi o convite do Sandro pelo meu empresário, mas quando eles me mandaram o texto, eu estava indo gravar no Rio e não ia tempo de ler. Perguntei quem ia dirigir e, quando soube que era o Reinecke… Ele já me dirigiu muito, somos parceiros há muitos anos. E quando soube o elenco, falei ‘não vou nem ler o texto, vambora!’
Gabriel Vivian: Eu comecei nômade entre o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul e falei ‘tenho que ir para São Paulo movimentar e quero teatro’. Tive uma conversa legal com o Sandro e ele falou que teria um personagem que seria bacana pra mim. Eu fiz um teste, mandei um vídeo e ele falou que eu seria o Henrique. Aí eu descobri que fui abençoadíssimo com um elenco maravilhoso, uma família perfeita. Estou totalmente vivendo um sonho porque basicamente é minha estreia no teatro aqui em São Paulo. Então chegar aqui com um elenco desses, nesse teatro lindo, é um sonho. Isso é um presente.
Sophia Abrahão: Foi uma surpresa para mim, é a primeira vez que trabalho com o Sandro Chaim. Eu estava viajando quando recebi a notícia e a gente conseguiu acertar. Cheguei um pouco atrasada, entrei nos ensaios depois deles, mas deu tudo certo. Eu já conhecia o texto, obviamente, do Juca. Mas a gente teve uma revisão do texto do nosso diretor agora, do Ale Reinemck, e me apaixonei e entrei na peça.
Taumaturgo Ferreira: O Sandro que me convidou. É a quarta peça do Juca de Oliveira que eu faço. Eu amo o Juca de Oliveira; era meu amigo, meu ídolo e eu me dou muito bem com as peças dele. Eu adoro o jeito que ele escreve. Ele é único para escrever comédias, sempre debochando dos políticos, dos corruptos. E sempre ele põe frente a frente algum político, banqueiro, industrial, alguém poderoso que é corrupto, e alguém que dá duro trabalhando, ganhando a vida honestamente.
Você mencionou justamente um viés político. Qual é o maior desafio de trazer uma peça com viés político e com um viés tão palpável ao público?
Sophia: Eu acho que existe a coisa dessa tristeza, a gente fala bastante sobre isso. Infelizmente, depois de 3 décadas, é um texto super atual. O desafio, de repente, talvez seja fazer as pessoas rirem durante aquela hora e meia da própria desgraça que elas veem ali no palco.
Taumaturgo: Mas pro Juca de Oliveira isso é fácil, porque, como eu disse, ele escrevia sobre isso na maioria das peças dele. A corrupção sempre está na moda, é sempre atual. Será que algum dia vai sair da moda? Não sei, acho difícil. E pro Juca de Oliveira o desafio seria não fazer uma peça panfletária, querendo dar liçãozinha de moral, querendo apontar o dedo para os outros. E ele faz isso brilhantemente, né? E debochar, não que a corrupção seja uma coisa que não tem importância, muito pelo contrário, mas Juca de Oliveira, ao debochar, faz as pessoas darem muitas risadas e também saírem pensando.
Esses papéis têm mais de 30 anos e já passaram pelas mãos de grandes nomes do teatro e do cinema, incluindo o próprio Juca de Oliveira. Existe uma pressão ao assumir personagens que já foram interpretados por atores tão marcantes? E como encontrar o equilíbrio entre o personagem do texto e colocar um pouco de vocês para criar algo novo?
Cássio: Por falar em atores grandes, aqui a gente tem atores maiores, o Paulo Gorgulho tem 1,82m. [risos] Sem dúvida, o espetáculo foi um grande sucesso com esses grandes nomes do teatro e reproduzir esse texto hoje, de uma maneira diferente, com uma nova leitura, é um desafio. A gente tem interpretações icônicas desse texto: Juca, o Fúlvio [Stefanini], a Cláudia [Mello], a Suzy Rêgo, Giovanna Antonelli… Então tem uma sequência de gente bacana que passou por esse espetáculo e que para nós é uma grande dificuldade.
Flávia: Dá uma responsabilidade, claro. Eu assisti à primeira montagem há muitos anos e é um um privilégio e uma honra poder passar por um lugar onde uma grande grande atriz como a Cláudia passou. Mas é inevitável que a gente coloque um pouco da gente, né? Então é outra Lina que eu faço do que ela fazia, é outro Roberto que o Cássio faz, que o Fulvio fez. Mas não deixa de ser uma referência, não tem como não lembrar. E é um orgulho você pisar no palco para refazer uma montagem que foi tão bem, e que era um time tão bom, e achar um time tão bom também
Gabriel: É um privilégio. Eu dividi um personagem pela primeira vez com o Petrônio Gontijo fazendo Davi, lá na Record, e ele também fez o Henrique na peça. Então é basicamente como se eu estivesse seguindo os passos de Petrônio Gontijo, perseguindo ele [risos]. Mas é muito bacana esse trabalho. Sou realmente muito privilegiado por estar contando essa história, porque grandes pessoas já a contaram e agora é a nossa vez.
Sophia: No meu caso, é uma personagem que já foi brilhantemente defendida por grandes atrizes e é muito legal de fazer. A Giovanna Antonelli fez a versão no cinema e arrasou, como sempre, assim como a Suzy Rêgo no teatro. Acho que o maior desafio da Angela talvez seja não ser muito estereotipada. Porque ela é a vigarista. O bandidão acha que é malandro com todo mundo, mas a Angela é malandra com ele também. Então o desafio é evitar cair na caricatura da secretária bonitona e interesseira. É fazer a Angela mais real, para as pessoas entenderem mesmo a dinâmica. Que ela tem uma agenda para enganar aquele cara, mas ela também tem outro namoradinho de quem ela gosta. Então conseguir trazer essas cores para cada momento da Ângela foi talvez um desafio, mas eu acho que está dando tudo certo. Tomara! Vocês que têm que dizer.
Taumaturgo: Os maiores desafios foram as marcas de cena do Alexandre Reinecke [risos] É muito coreografado. Agora já está bem tranquilo, mas no começo, você decorar os textos e depois aquelas marcas milimétricas e coreográficas, foi o que demorou mais para acertar. Quanto ao personagem, é o tipo de coisa que eu gosto de fazer, porque a peça é bem engraçada e eu adoro fazer comédia, adoro me divertir e adoro ver as pessoas dando risada no teatro. É uma grande satisfação.
Como foi a recepção do público nessas semanas em que vocês estão em cartaz até agora? Como está sendo?
Flávia: Surpreendente!
Cássio: O público adora, e é uma tristeza porque o espetáculo é completamente atual. A gente tem que vir aqui para não chorar, mas para rir da situação, porque os problemas continuam praticamente os mesmos. Então tivemos uma grande receptividade positiva do público e da crítica também. Estamos tendo críticas excelentes, as pessoas gostam do espetáculo. Então é muito gratificante
Flávia: Quando ensaiamos comédia sozinhos, a gente começa a questionar ‘será que vai funcionar?’ E o texto do Juca funciona muito. A virada dramatúrgica, a carpintaria dele, as grandes viradas que têm são impressionantes. No primeiro dia a gente se surpreendeu, e agora a gente entendeu que é a força dele ali, da inteligência da dramaturgia dele. Então acho que a tendência é funcionar cada vez mais, porque a gente vai ficando cada vez mais ajeitado, como já estamos.